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Condroitina e MSM: o que a evidência realmente diz

Meta-análises se contradizem sobre a condroitina, e a variável que melhor explica a divergência é quem financiou o estudo. Veja os números.

Equipe Fitobrasil Fitobrasil — indústria de suplementos, Taquara/RS
Representação gráfica de cartilagem articular em corte, mostrando a matriz extracelular em tons claros.
Representação gráfica de cartilagem articular em corte, mostrando a matriz extracelular em tons claros.

Poucos temas em nutrição têm uma literatura tão contraditória quanto a condroitina. Não é o caso comum de “os estudos mostram X, mas céticos discordam”. É um caso em que meta-análises tecnicamente competentes chegam a conclusões opostas — e existe uma variável que explica boa parte da divergência.

O que são

Sulfato de condroitina é um glicosaminoglicano: uma cadeia longa de dissacarídeos alternados de ácido glicurônico e N-acetil-galactosamina, com grupos sulfato em posições variáveis. É o componente central do proteoglicano agrecana, a molécula que retém água na cartilagem e lhe dá resistência à compressão.

Um detalhe que quase ninguém menciona: “condroitina” não é uma molécula, é uma família de moléculas. A combinação de padrões de sulfatação produz um número enorme de polímeros distintos, com propriedades diferentes — e a estrutura varia conforme tecido, espécie e até idade do animal de origem.

MSM (metilsulfonilmetano) é bem mais simples: (CH₃)₂SO₂, a dimetilsulfona. Um composto organossulfurado cristalino e inodoro, presente em quantidades ínfimas — da ordem de centésimos de ppm — em frutas, vegetais, grãos, café, chá e leite. O MSM comercial é sintético, produzido pela oxidação do DMSO com peróxido de hidrogênio.

O problema do mecanismo da condroitina

O argumento intuitivo é “comer cartilagem para repor cartilagem”. A biologia não coopera.

Um estudo de absorção com 20 voluntários saudáveis, publicado em Osteoarthritis and Cartilage em 2003, deu 4 g de condroitina e acompanhou o plasma. Os níveis subiram mais de 120%, com pico em 8,7 horas — mas a composição mudou. A proporção de dissacarídeo não sulfatado caiu, a de 4-sulfatado subiu, e a densidade média de carga passou de 0,40 para 0,72.

Traduzindo: absorve-se algo, em fração pequena, com atraso de horas, e estruturalmente alterado. O que chega à circulação não é o polímero íntegro.

Quanto ao MSM, a hipótese de que ele funcione como “doador de enxofre” para metionina e cisteína vem de estudos animais dos anos 1980. Uma revisão em Nutrients de 2017 é honesta: em humanos, “nenhuma tendência dose-dependente é observada entre indivíduos para mudanças de sulfato plasmático e homocisteína”. A hipótese permanece hipótese.

Os números que importam

GAIT — o maior e mais independente

O Glucosamine/chondroitin Arthritis Intervention Trial, publicado no New England Journal of Medicine em 2006, é o maior ensaio já feito com esses ativos: 1.583 pacientes, financiado pelo NIH — portanto independente da indústria — com braços de placebo e de celecoxibe.

Taxa de resposta em 24 semanas:

GrupoRespostap
Placebo60,1%
Glicosamina+3,9 pp0,30
Condroitina+5,3 pp0,17
Combinação+6,5 pp0,09
Celecoxibe+10,0 pp0,008

Conclusão dos autores: glicosamina e condroitina, isoladas ou combinadas, não reduziram a dor efetivamente no grupo geral.

A extensão de dois anos, publicada em Annals of the Rheumatic Diseases em 2010, foi ainda mais dura: as odds de atingir redução de 20% na dor foram de 0,69 para a condroitina isolada — numericamente pior que placebo, embora não significativo.

A meta-análise que quantifica o viés

Uma meta-análise em rede publicada no BMJ em 2010 restringiu-se deliberadamente a ensaios com mais de 200 pacientes — critério que exclui os pequenos estudos industriais. Foram 10 ensaios e 3.803 pacientes.

Efeito sobre a dor em escala visual de 10 cm, contra placebo: glicosamina −0,4 cm, condroitina −0,3 cm, combinação −0,5 cm. O limiar mínimo de relevância clínica havia sido pré-especificado em −0,9 cm. Nenhum intervalo cruzou esse limiar.

E o achado central: ensaios independentes mostraram efeitos menores que os financiados comercialmente, com p=0,02 para a interação.

Um trabalho de 2007 em Arthritis & Rheumatism quantificou isso de forma ainda mais direta para a glicosamina: tamanhos de efeito de 0,05 a 0,16 em ensaios sem envolvimento da indústria, contra 0,47 a 0,55 nos com envolvimento. Um mesmo ativo, efeito medido de 4 a 10 vezes maior conforme quem pagou.

A Cochrane — e a frase decisiva

A revisão Cochrane de 2015 sobre condroitina reuniu 43 ensaios. Encontrou benefício, mas com evidência de qualidade baixa e alto risco de viés na maior parte dos desfechos. O achado mais confiável — evidência de alta qualidade, risco de viés baixo — foi modesto: 53 respondedores em 100 contra 47 no placebo, diferença absoluta de 6%.

E então esta frase, das próprias autoras:

“Estes efeitos benéficos tornaram-se incertos quando limitamos os dados a estudos com ocultação de alocação apropriada, ou a estudos com amostra grande, ou a estudos sem financiamento farmacêutico.”

O que dizem as diretrizes

A diretriz de 2019 do American College of Rheumatology com a Arthritis Foundation recomenda fortemente contra o uso de glicosamina e de sulfato de condroitina em osteoartrite de joelho e quadril. A justificativa literal do painel:

“Discrepâncias na eficácia relatada em estudos patrocinados pela indústria, em oposição aos financiados publicamente, levantaram sérias preocupações sobre viés de publicação.”

O NICE, no Reino Unido, é igualmente direto: “não ofereça glicosamina” para manejo de osteoartrite. Nem glicosamina nem condroitina figuram entre os tratamentos recomendados da OARSI 2019.

Há um contraponto europeu — a ESCEO recomenda esses ativos como terapia de fundo. Vale a nota de rodapé: o autor principal de suas recomendações declara vínculos financeiros com o fabricante da condroitina testada no ensaio que ele mesmo liderou.

MSM: evidência escassa

Existem essencialmente dois ensaios randomizados. Um de 2006, com 50 pacientes e 6 g/dia por 12 semanas, encontrou melhora em dor e função — mas os próprios autores o chamam de piloto e concluem que benefício e segurança “não podem ser confirmados a partir deste ensaio”. Outro, de 2011, com 49 pacientes e 3,375 g/dia, atingiu significância em função física, mas não em dor (p=0,08), e os autores registram que as melhoras “são pequenas e ainda está por ser determinado se são de significância clínica”.

Uma revisão sistemática de 2008 dedicada ao MSM contabilizou apenas 168 pacientes ao todo, dos quais 52 receberam tratamento ativo. Conclusão: nenhuma conclusão definitiva pode ser tirada.

E uma revisão de 2015 sobre condroproteção que buscou ensaios de 12 meses ou mais com desfecho radiográfico não encontrou nenhum para MSM.

No Brasil: um cenário regulatório peculiar

Aqui a legislação brasileira produz um descompasso que vale conhecer:

AtivoMáximo em suplementoDose usada nos estudos
Condroitina600 mg/dia800–1.200 mg
MSM900 mg/dia3.375–6.000 mg
Glicosaminanão autorizada1.500 mg (só como medicamento)

Ou seja: nenhum suplemento alimentar brasileiro pode legalmente entregar a dose com que os estudos foram feitos. Para isso é preciso medicamento — e a associação glicosamina + condroitina em dose eficaz é, no Brasil, medicamento de venda sob prescrição.

Dois outros pontos regulatórios importantes:

Não existe alegação de saúde autorizada nem para condroitina nem para MSM. Um suplemento com esses ingredientes não pode alegar benefício articular.

E a condroitina só é permitida em suplementos no Brasil em uma única forma: obtida por fermentação de Escherichia coli. Condroitina de origem animal — bovina, suína, de tubarão — não é autorizada. Isso resolve por via regulatória boa parte dos problemas de alergenicidade, contaminação e rastreabilidade documentados na literatura internacional, e diferencia bastante o mercado brasileiro do americano.

Segurança

O perfil de ambos é favorável. A Cochrane associou a condroitina a menor chance de eventos adversos graves. O MSM é reconhecido como seguro pela FDA em doses abaixo de 4.845 mg/dia.

A interação relevante é com anticoagulantes. Um relato de caso de autores da FDA, publicado em Pharmacotherapy em 2008, descreve paciente com INR estável por cinco anos que chegou a 4,7 após aumentar a dose de glicosamina+condroitina. A base MedWatch registrava 20 relatos de coagulação alterada nessa combinação, um deles com desfecho neurológico grave.

O veredito honesto

O efeito da condroitina, se real, é pequeno e de significância clínica duvidosa — e encolhe sistematicamente conforme a qualidade metodológica e a independência do financiamento aumentam. O MSM tem evidência ainda mais escassa: dois ensaios pequenos, resultados mistos, zero estudos de longo prazo com desfecho estrutural.

Nenhum dos dois é perigoso. Nenhum dos dois é comprovado.

Referências

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  3. Wandel S, Jüni P, Tendal B, et al. Effects of glucosamine, chondroitin, or placebo in patients with osteoarthritis of hip or knee: network meta-analysis. BMJ. 2010;341:c4675. PMID: 20847017. DOI: 10.1136/bmj.c4675
  4. Singh JA, Noorbaloochi S, MacDonald R, Maxwell LJ. Chondroitin for osteoarthritis. Cochrane Database Syst Rev. 2015;1:CD005614. PMID: 25629804. DOI: 10.1002/14651858.CD005614.pub2
  5. Vlad SC, LaValley MP, McAlindon TE, Felson DT. Glucosamine for pain in osteoarthritis: why do trial results differ? Arthritis Rheum. 2007;56(7):2267-2277. PMID: 17599746
  6. Kolasinski SL, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Rheumatol. 2020;72(2):220-233. PMID: 31908149
  7. Volpi N. Oral absorption and bioavailability of ichthyic origin chondroitin sulfate in healthy male volunteers. Osteoarthritis Cartilage. 2003;11(6):433-441. PMID: 12801483
  8. Kim LS, Axelrod LJ, Howard P, et al. Efficacy of methylsulfonylmethane (MSM) in osteoarthritis pain of the knee: a pilot clinical trial. Osteoarthritis Cartilage. 2006;14(3):286-294. PMID: 16309928
  9. Debbi EM, Agar G, Fichman G, et al. Efficacy of methylsulfonylmethane supplementation on osteoarthritis of the knee. BMC Complement Altern Med. 2011;11:50. PMID: 21708034
  10. Butawan M, Benjamin RL, Bloomer RJ. Methylsulfonylmethane: Applications and Safety of a Novel Dietary Supplement. Nutrients. 2017;9(3):290. PMID: 28300758
  11. Knudsen JF, Sokol GH. Potential glucosamine-warfarin interaction resulting in increased international normalized ratio. Pharmacotherapy. 2008;28(4):540-548. PMID: 18363538
  12. Anvisa. Instrução Normativa nº 28/2018 (texto consolidado), Anexos I, IV, V e VI.

Fechando a matéria

Referências

  1. Clegg DO, Reda DJ, Harris CL, et al.Glucosamine, chondroitin sulfate, and the two in combination for painful knee osteoarthritis (GAIT). N Engl J Med. 2006;354(8):795-808. acessar
  2. Singh JA, Noorbaloochi S, MacDonald R, Maxwell LJ.Chondroitin for osteoarthritis. Cochrane Database Syst Rev. 2015;1:CD005614. acessar
  3. Wandel S, Jüni P, Tendal B, et al.Effects of glucosamine, chondroitin, or placebo in patients with osteoarthritis of hip or knee: network meta-analysis. BMJ. 2010;341:c4675. acessar

Conteúdo informativo produzido pela Fitobrasil. Suplemento alimentar não é medicamento e não substitui alimentação equilibrada nem acompanhamento de profissional de saúde. Gestantes, lactantes e crianças precisam de orientação profissional antes do uso.