Saúde
Coenzima Q10: ubiquinol é mesmo melhor que ubiquinona?
A resposta curta é não — o que determina a absorção da CoQ10 é a formulação, não a forma redox. Veja os estudos, as doses e o que a Anvisa permite.
Se você já comparou dois frascos de coenzima Q10 e viu uma diferença grande de preço justificada pela palavra “ubiquinol”, este post é para você. A resposta curta: a evidência não sustenta a superioridade do ubiquinol. O que sustenta é algo bem menos glamoroso — a formulação.
O que é a coenzima Q10
A CoQ10 é uma 1,4-benzoquinona lipossolúvel com uma cauda de dez unidades isoprenoides — daí o “10” do nome.
Sua função central está na mitocôndria. Na membrana mitocondrial interna, ela atua como carreador móvel de elétrons: recebe elétrons dos Complexos I e II da cadeia respiratória e os entrega ao Complexo III. Sem ela, a produção de ATP para.
O corpo a sintetiza pela via do mevalonato — a mesma via do colesterol. Guarde esse detalhe: ele volta mais adiante.
Ubiquinona e ubiquinol: a diferença real
Ubiquinona é a forma oxidada. Ubiquinol é a forma reduzida — dois hidrogênios a mais no anel. E aqui está o ponto que o marketing omite: as duas se interconvertem continuamente dentro do corpo. Não são moléculas com destinos diferentes; são dois estados do mesmo ciclo redox.
Existem pelo menos cinco sistemas enzimáticos capazes de reduzir ubiquinona a ubiquinol. E há um dado que resolve boa parte da discussão: no sangue, a CoQ10 circula na forma ubiquinol independentemente da forma que foi ingerida.
O que os estudos mostram
Os trabalhos que encontraram superioridade do ubiquinol têm todos o mesmo perfil: n de 10 a 12 participantes. Um estudo de 2014 com 12 adultos saudáveis mediu CoQ10 plasmática subindo de 0,9 para 2,5 µg/mL com ubiquinona, contra 0,9 para 4,3 µg/mL com ubiquinol (p<0,005). Outro, de 2018 com 10 homens idosos, chegou a conclusão parecida.
Mas há uma crítica metodológica que unifica todos eles: a ubiquinona usada como comparador não havia passado por dispersão térmica de cristais. Não é uma comparação justa entre formas redox — é uma comparação entre qualidades de formulação.
Uma revisão de 2020 em Antioxidants mostrou o tamanho desse efeito: a AUC do ubiquinol foi cerca de duas vezes maior que a de uma ubiquinona sem dispersão de cristais — mas apenas 52% da AUC de uma ubiquinona com dispersão. A ausência do processamento reduz a biodisponibilidade em cerca de 75%. Conclusão dos autores: “o conceito de biodisponibilidade superior do ubiquinol suplementar em comparação à ubiquinona parece ser equivocado.”
Honestidade obrigatória: os dois autores dessa revisão são funcionários de uma empresa que vende ubiquinona com dispersão de cristais. O viés direcional é evidente, e o texto não pode ser usado como árbitro neutro. Mas os dados que ele apresenta são consistentes com o resto da literatura.
Um estudo de 2018 com 11 adultos comparou ubiquinona 150 mg, ubiquinol 150 mg e ubiquinona lipossomal por seis semanas: sem diferença significativa nos níveis plasmáticos, com absorção altamente variável entre indivíduos independentemente da forma.
O que realmente importa
A evidência mais forte da área vem de um estudo publicado em Nutrition em 2019, que comparou sete formulações diferentes com 100 mg de CoQ10 em 14 voluntários, medindo AUC ao longo de 48 horas. As diferenças entre formulações foram grandes e estatisticamente significativas. E as duas melhores foram cápsulas soft-gel — uma de ubiquinona e uma de ubiquinol.
Ou seja: o que determina a absorção é a matriz lipídica, a solubilização e os excipientes. Não o estado redox. Isso, e uma enorme variabilidade individual — a mesma formulação absorve de forma diferente em pessoas diferentes.
CoQ10 e estatinas: os dois lados
Lembra da via do mevalonato? As estatinas inibem a HMG-CoA redutase, que está a montante tanto do colesterol quanto da CoQ10. Reduzir uma reduz a outra.
A depleção é real e quantificada: uma meta-análise de 2015 em Pharmacological Research encontrou redução da CoQ10 plasmática de −0,44 µmol/L (IC95% −0,52 a −0,37; p<0,001) com estatina.
Mas atenção à cadeia lógica: depleção comprovada ≠ prova de que ela causa a dor muscular ≠ prova de que repor resolve.
A favor: meta-análises de 2015, 2018 e 2025 encontraram redução em dor, fraqueza e cãibra muscular. A de 2018, com 12 ensaios e 575 pacientes, reportou WMD de −1,60 para dor muscular. Mas nenhuma encontrou redução de CK, o marcador objetivo de lesão muscular.
Contra: uma meta-análise de 2020 em Atherosclerosis, com 7 ensaios e 321 pacientes, não encontrou benefício em mialgia (WMD −0,42; IC95% −1,47 a 0,62) nem em aderência à estatina.
E há o ensaio de melhor desenho da área, de 2015. Ele fez algo que ninguém mais fez: antes de testar a CoQ10, submeteu 120 pacientes que se queixavam de dor por estatina a um crossover cego de oito semanas, para confirmar objetivamente que a dor era mesmo da estatina.
Apenas 41 pessoas — 36% — desenvolveram dor com a estatina e não com placebo.
Esses 41 receberam então 600 mg/dia de CoQ10 ou placebo. A CoQ10 sérica subiu de 1,3 para 5,2 µg/mL, confirmando que a absorção não foi o problema. E o resultado: a dor aumentou com a sinvastatina independentemente da CoQ10 (p=0,53). Marginalmente mais pacientes relataram dor no braço com CoQ10.
O achado mais útil desse estudo talvez não seja sobre a CoQ10, e sim sobre a mialgia: dois terços das pessoas que atribuem dor muscular à estatina têm dor que não vem da estatina. Há um componente nocebo enorme — e boa parte do “benefício” percebido com CoQ10 na prática pode ser efeito placebo sobre um sintoma que já não era do remédio.
Outros desfechos
Insuficiência cardíaca. O ensaio Q-SYMBIO, publicado em 2014, acompanhou 420 pacientes por dois anos com 300 mg/dia. Os desfechos de curto prazo em 16 semanas foram todos negativos. Mas em dois anos: eventos cardiovasculares maiores em 15% contra 26% no placebo (HR 0,50; p=0,003), com redução de mortalidade. A revisão Cochrane de 2021 avaliou a evidência como de qualidade moderada — mas registrou que o dado de mortalidade repousa inteiramente em um único ensaio, e concluiu que “não há atualmente evidência convincente para apoiar ou refutar o uso de coenzima Q10 na insuficiência cardíaca”.
Enxaqueca. Um ensaio de 2005 com 42 pacientes e 300 mg/dia encontrou taxa de resposta de 47,6% contra 14,4% no placebo, com NNT de 3 — mas o efeito só apareceu no terceiro mês, e nunca foi replicado em ensaio grande. Uma meta-análise de 2021 com 6 estudos e 371 participantes encontrou redução de cerca de 1,5 crise por mês, mas nenhuma redução de severidade e uma redução de duração de 0,19 hora — cerca de 11 minutos, clinicamente trivial.
Segurança
O perfil é bom. Uma avaliação de segurança de 2008 estabeleceu NOAEL de 1.200 mg/kg/dia em ratos, com ingestão diária aceitável estimada em torno de 720 mg/dia para uma pessoa de 60 kg. Doses de 300 mg/dia por dois anos e 600 mg/dia por oito semanas foram bem toleradas em ensaios.
Sobre a varfarina: a preocupação é estruturalmente plausível, já que a CoQ10 se parece com a vitamina K, e existe um relato de caso de 1998 com redução da resposta anticoagulante. Mas o único ensaio clínico controlado — crossover com 24 pacientes em varfarina crônica, com 100 mg/dia por quatro semanas — não confirmou a interação: o INR se manteve estável e a dose média de varfarina não mudou. A recomendação prudente continua sendo avisar o médico e monitorar o INR, mas não é correto afirmar que “CoQ10 corta o efeito da varfarina” como fato estabelecido.
No Brasil
Dois pontos que mudam a leitura de qualquer rótulo:
1. Não existe nenhuma alegação de saúde autorizada para coenzima Q10 na IN 28/2018. Nenhuma. Qualquer anúncio brasileiro dizendo que a CoQ10 “dá energia”, “protege o coração” ou “combate radicais livres” está fora do que a norma permite.
2. O teto legal é de 200 mg/dia para maiores de 19 anos — e o uso é vedado para gestantes, lactantes e todos os menores de 19 anos. Repare: as doses dos principais ensaios clínicos (300 mg no Q-SYMBIO, 600 mg no ensaio de estatinas) não são alcançáveis dentro do limite regulatório brasileiro para suplementos.
O resumo
Não há base para pagar caro pelo ubiquinol. Olhe a formulação, olhe a dose declarada por porção, e saiba que a resposta individual varia muito. A evidência mais sólida está em insuficiência cardíaca — e mesmo ali repousa sobre um único ensaio.
Referências
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- Anvisa. Instrução Normativa nº 28/2018 (texto consolidado), Anexos I, IV, V e VI.
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Referências
- Mantle D, Dybring A.Bioavailability of Coenzyme Q10: An Overview of the Absorption Process and Subsequent Metabolism. Antioxidants. 2020;9(5):386. acessar
- Mortensen SA, Rosenfeldt F, Kumar A, et al.The effect of coenzyme Q10 on morbidity and mortality in chronic heart failure (Q-SYMBIO). JACC Heart Fail. 2014;2(6):641-649. acessar
- Taylor BA, Lorson L, White CM, Thompson PD.A randomized trial of coenzyme Q10 in patients with confirmed statin myopathy. Atherosclerosis. 2015;238:329-335. acessar
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