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EGCG: beber chá verde não é o mesmo que tomar extrato

A diferença entre a xícara e a cápsula não é de grau, é de natureza. O que muda na absorção, o que a EFSA limitou e o que a Anvisa nem autoriza.

Equipe Fitobrasil Fitobrasil — indústria de suplementos, Taquara/RS
Folhas de chá verde soltas ao lado de xícara de porcelana branca com infusão clara sobre bandeja de madeira.
Folhas de chá verde soltas ao lado de xícara de porcelana branca com infusão clara sobre bandeja de madeira.

Há uma frase que resume este post inteiro: beber chá verde e tomar extrato de chá verde não são a mesma coisa em doses diferentes — são coisas diferentes. A biologia da absorção muda, o perfil de segurança muda, e a regulamentação trata as duas de forma separada.

O que é o EGCG

O galato de epigalocatequina-3 é uma catequina — um flavan-3-ol, subclasse dos flavonoides, portanto um polifenol. É a catequina mais abundante nas folhas de Camellia sinensis, seguida de ECG, EC, EGC e C.

E aqui vale desfazer uma confusão comum: chá verde, branco, oolong e preto vêm da mesma planta. O que os diferencia não é botânica, é processamento — especificamente o grau de oxidação enzimática após a colheita.

Quando a folha é macerada, as células se rompem e as enzimas polifenol oxidase e peroxidase entram em contato com as catequinas. A PPO oxida catequinas a quinonas, que se condensam formando teaflavinas (os pigmentos alaranjados) e, por polimerização, tearrubiginas (o marrom-avermelhado do chá preto).

O chá verde escapa disso porque a folha é aquecida rapidamente logo após a colheita — a vapor ou em panela — o que desnatura a PPO e preserva as catequinas. Os números confirmam: catequinas totais de 51,5 a 84,3 mg/g de matéria seca em chás verdes, contra 5,6 a 47,5 mg/g em chás pretos.

Quanto tem numa xícara

Menos padronização do que você imagina. Um estudo com chás verdes comerciais mediu 117 a 442 mg de EGCG por litro de infusão — o que dá algo entre 23 e 88 mg por xícara de 200 mL, uma variação de quase quatro vezes entre marcas.

A faixa honesta a comunicar é 25 a 100 mg de EGCG por xícara, dependendo de marca, quantidade de folha, temperatura e tempo.

A temperatura importa — e não é a que você imagina

Água fervendo direto não é o ideal. Um estudo turco testou 75, 85 e 95 °C em oito tempos de infusão diferentes e encontrou o ótimo em 85 °C por 3 minutos. Infusões mais longas reduziram o EGCG, porque as catequinas se degradam e se epimerizam, além de piorarem muito o sabor.

Outro trabalho encontrou eficiência máxima de extração a 80 °C por 20 minutos, com degradação observada em temperaturas mais altas. A recomendação que a literatura sustenta é 80 a 85 °C por 2 a 3 minutos.

Cafeína e L-teanina

A cafeína real por porção fica entre 14 e 61 mg, sem tendência clara por tipo de chá.

E um achado contraintuitivo: um estudo de 2011 mediu L-teanina em xícaras de 200 mL e encontrou 24,2 mg no chá preto, 11,5 mg no branco e apenas 7,9 mg no verde. O chá preto entregou mais teanina que o verde — o oposto da narrativa comum de “chá verde é o chá da teanina”.

O que a evidência mostra sobre emagrecimento

A referência que fecha essa discussão é a revisão Cochrane de 2012, com 14 ensaios e cerca de 1.562 participantes adultos com sobrepeso ou obesidade.

Nos estudos realizados fora do Japão — 6 ensaios, 532 participantes — a diferença média de peso foi de −0,04 kg (IC95% −0,5 a +0,4; p=0,88). Quarenta gramas. Zero, dentro do erro. O IMC também não diferiu significativamente.

Os estudos japoneses foram heterogêneos, variando de −0,2 a −3,5 kg. A conclusão dos autores foi que as preparações de chá verde induzem perda de peso pequena, estatisticamente não significativa, e com efeitos “improváveis de serem clinicamente importantes”.

E o efeito termogênico? Uma meta-análise de 2011 em câmara respiratória mediu: misturas de catequina com cafeína aumentaram o gasto energético de 24 h em +4,7%. Cafeína isolada, na dose equivalente: +4,8% — praticamente idêntico. A diferença ficou na oxidação de gordura, onde a mistura foi significativa e a cafeína isolada não.

Traduzindo: o “efeito termogênico do chá verde” é, em boa parte, efeito da cafeína. O que sobra atribuível às catequinas é modesto.

Segurança: onde a distinção entre chá e extrato fica crítica

Este é o ponto mais importante do post.

O que a EFSA estabeleceu

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos publicou parecer em 2018 com uma conclusão explícita:

“Há evidência de ensaios clínicos de intervenção de que a ingestão de doses iguais ou acima de 800 mg de EGCG/dia tomadas como suplemento alimentar induz aumento estatisticamente significativo de transaminases séricas.”

Como o limiar foi derivado: 7 estudos mostraram alteração de parâmetros hepáticos em doses ≥800 mg/dia, com 724 sujeitos expostos. Já 756 sujeitos que receberam até 316 mg/dia não apresentaram elevação de transaminases.

E o dado decisivo, textual: “não houve evidência de ALT elevada com consumo de infusão de chá verde ≥5 xícaras/dia ou contendo 700 mg de EGCG/dia.”

Chá infuso: sem sinal. Extrato concentrado em dose alta: sinal claro.

A União Europeia agiu com base nisso. O Regulamento (UE) 2022/2340 proibiu extratos de chá verde que forneçam 800 mg ou mais de EGCG por dose diária, exigiu advertências de rotulagem — inclusive a de não consumir em jejum — e excluiu explicitamente as infusões tradicionais da restrição.

O que os casos clínicos mostram

A base LiverTox, do NIH, cataloga mais de 100 casos de lesão hepática clinicamente aparente atribuídos a extrato de chá verde, com escore de probabilidade A. Na rede DILIN americana, o extrato de chá verde é o agente botânico isolado mais frequentemente implicado em lesão hepática por suplementos. Há casos fatais e casos com transplante de urgência documentados.

Um ensaio randomizado de 12 meses com 1.075 mulheres, o Minnesota Green Tea Trial, mediu diretamente: ALT subiu 5,4 U/L e AST 3,8 U/L no braço com extrato (ambos p<0,001), com 5,1% desenvolvendo anormalidade hepática moderada ou pior — odds ratio de 7,0. A ALT normalizou após suspensão e voltou a subir na reexposição, padrão que indica causalidade forte.

Por que só algumas pessoas

Um estudo de 2021 em Hepatology analisou 1.414 pacientes da rede DILIN e encontrou o achado que resolve o aparente paradoxo entre “casos graves existem” e “meta-análises não veem sinal”:

O alelo HLA-B*35:01 estava presente em 72% dos casos por chá verde, contra 15% dos casos por outros suplementos, 12% por medicamentos e 11% em controles populacionais.

A lesão hepática por chá verde é idiossincrásica e imunomediada. Não existe dose garantidamente segura para o indivíduo suscetível — mas a imensa maioria das pessoas não tem esse perfil.

E por que o extrato é diferente

Há uma razão farmacocinética. Um estudo de fase I mostrou que a biodisponibilidade sistêmica do EGCG aumenta desproporcionalmente em doses altas, provavelmente por saturação da eliminação pré-sistêmica. Uma revisão da USP acrescentou o outro fator: administração em bolus e em jejum aumenta significativamente a biodisponibilidade.

Ou seja: chá é exposição diluída ao longo do dia, com comida e água. Cápsula é bolus, muitas vezes em jejum. A curva de exposição não é a mesma.

A USP incluiu na monografia do extrato descafeinado a advertência literal: “Não tomar com o estômago vazio. Tomar com comida.”

Interações

Ferro. Polifenóis do chá reduzem drasticamente a absorção de ferro não-heme. Um estudo clássico mediu reduções de 50 a 70% com bebidas contendo 20 a 50 mg de polifenóis por porção, e de 60 a 90% com 100 a 400 mg. Adicionar leite não resolve.

A boa notícia é que a solução é simples. Um ensaio com isótopo estável mostrou que tomar o chá uma hora depois da refeição reduz o efeito inibitório de 37,2% para 18,1% — quase metade. Quem tem risco de deficiência de ferro deve separar o chá da refeição.

Varfarina. Existe um único relato de caso, de 1999, de queda de INR em um paciente que passou a beber de 1,9 a 3,8 litros de chá verde por dia. O mecanismo proposto — vitamina K — é questionável, porque a vitamina K1 é lipossolúvel e fica majoritariamente na folha, não na infusão. Não há ensaio clínico. A orientação prudente para quem usa varfarina é manter o consumo constante e avisar o prescritor.

No Brasil

Um fato regulatório que surpreende quem trabalha no setor: chá verde, Camellia sinensis como fonte de catequinas, catequinas e EGCG não constam da lista de constituintes autorizados para suplementos alimentares da IN 28/2018.

A única entrada de Camellia sinensis na lista é a L-teanina de suas folhas, incluída em 2024, com mínimo de 50 mg e máximo de 250 mg por dia para adultos.

Ou seja: no Brasil, extrato de chá verde padronizado em EGCG não se enquadra como suplemento alimentar. Ele cabe como alimento/bebida ou como medicamento fitoterápico sob a RDC 26/2014. E não existe alegação funcional autorizada para chá verde ou catequinas.

Para referência, o teto de cafeína em suplementos no Brasil é de 200 mg/dia — e uma xícara de chá já entrega de 30 a 70 mg.

O resumo

Beba chá. A evidência de segurança da infusão é tranquilizadora até cinco xícaras por dia, e a experiência de tomar um chá quente não precisa de justificativa científica. Desconfie de extratos concentrados em dose alta, principalmente em jejum, principalmente com promessa de emagrecimento — que é exatamente onde a melhor evidência não encontra efeito.

Referências

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  10. Reto M, Figueira ME, Filipe HM, Almeida CMM. Chemical composition of green tea (Camellia sinensis) infusions commercialized in Portugal. Plant Foods Hum Nutr. 2007;62(4):139-144. PMID: 17899383
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  15. Regulamento (UE) 2022/2340 da Comissão, que altera o Anexo III do Regulamento (CE) nº 1925/2006.
  16. Anvisa. Instrução Normativa nº 28/2018 (texto consolidado), Anexos I e V.

Fechando a matéria

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Referências

  1. EFSA ANS Panel.Scientific opinion on the safety of green tea catechins. EFSA Journal. 2018;16(4):5239. acessar
  2. Jurgens TM, Whelan AM, Killian L, Doucette S, Kirk S, Foy E.Green tea for weight loss and weight maintenance in overweight or obese adults. Cochrane Database Syst Rev. 2012;12:CD008650. acessar
  3. Hoofnagle JH, Bonkovsky HL, Phillips EJ, et al.HLA-B*35:01 and Green Tea-Induced Liver Injury. Hepatology. 2021;73(6):2484-2493. acessar

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