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Licopeno: por que o tomate cozido vale mais que o cru

Cozinhar tomate com um pouco de gordura multiplica a absorção do licopeno por até 3,8 vezes. Entenda os mecanismos e o que a evidência sustenta.

Equipe Fitobrasil Fitobrasil — indústria de suplementos, Taquara/RS
Tomates maduros inteiros e molho de tomate em panela de ferro sobre fogão, com fio de azeite ao lado.
Tomates maduros inteiros e molho de tomate em panela de ferro sobre fogão, com fio de azeite ao lado.

Existe pouca coisa em nutrição tão bem documentada e tão contraintuitiva quanto esta: o tomate processado entrega mais licopeno aproveitável que o tomate fresco. Não um pouco mais — várias vezes mais. Este post explica por quê, e o que a evidência realmente sustenta sobre o resto.

O que é o licopeno

O licopeno é um carotenoide acíclico: uma cadeia linear de 40 carbonos com 11 duplas ligações conjugadas e, crucialmente, sem anéis β-ionona nas extremidades. É o pigmento que dá ao tomate maduro sua cor vermelha.

Essa ausência de anel tem uma consequência direta: o licopeno não tem atividade pró-vitamina A. O betacaroteno tem dois anéis β-ionona, e é por isso que a enzima de clivagem consegue gerar retinal a partir dele. O licopeno não oferece esse ponto de ataque. São dois carotenoides com funções bem diferentes, apesar da semelhança visual.

No alimento fresco, o licopeno está essencialmente na configuração all-trans. Guarde isso.

Quanto tem em cada alimento

AlimentoPorçãoLicopeno
Extrato de tomate enlatado1 xícara75,5 mg
Purê de tomate1 xícara54,5 mg
Suco de tomate1 xícara22,0 mg
Sopa de tomate condensada1 xícara16,1 mg
Melancia crua1 xícara6,9 mg
Tomate cru1 médio3,2 mg
Ketchup1 colher de sopa2,1 mg

Uma ressalva de honestidade: comparar uma xícara de extrato com um tomate cru é enganoso, porque ninguém come uma xícara de extrato de uma vez. Por 100 g a diferença fica em torno de 11 vezes — extrato com cerca de 28,8 mg contra 2,6 mg do tomate cru. Ainda assim, é uma diferença enorme.

Os três mecanismos

E o teor é só metade da história. A biodisponibilidade também muda.

1. Ruptura da matriz celular. No tomate cru, o licopeno está preso em estruturas cristalinas dentro dos cromoplastos, ligado à matriz do tecido vegetal. O calor rompe a parede celular e enfraquece essas ligações, tornando o licopeno acessível.

2. Isomerização trans→cis. O calor fornece energia que converte os isômeros all-trans em isômeros cis. E os isômeros cis são mais biodisponíveis — eles têm menos tendência a cristalizar e se incorporam melhor às micelas mistas do intestino.

3. Gordura. Carotenoides são lipossolúveis e precisam de micelas para serem absorvidos. Segundo o Linus Pauling Institute, 3 a 5 gramas de gordura numa refeição já são suficientes para viabilizar a absorção de carotenoides. Aquecer tomate em óleo melhora substancialmente a biodisponibilidade.

A prova em humanos

Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition em 1997 desenhou o experimento de forma inteligente: deu 23 mg de licopeno a voluntários, seja de tomate fresco, seja de extrato de tomate — ambos com 15 g de óleo de milho. A gordura era idêntica nos dois braços, isolando o efeito do processamento.

Resultado: o extrato produziu concentração plasmática de pico 2,5 vezes maior e AUC 3,8 vezes maior. Como controle interno, as respostas de α e β-caroteno não diferiram.

A gordura é condição necessária. O processamento é o multiplicador adicional.

E a isomerização acontece mesmo no corpo

Um estudo de 1996 mediu a distribuição de isômeros em três compartimentos:

  • Nos alimentos: 79 a 91% all-trans
  • No soro humano: 27 a 42% all-trans
  • Na próstata: apenas 12 a 21% all-trans

Ou seja, a distribuição no tecido é quase o inverso da do alimento. O corpo isomeriza, absorve preferencialmente as formas cis, ou ambos.

O mecanismo antioxidante — e a ressalva que ninguém cita

O licopeno é frequentemente descrito como “o carotenoide antioxidante mais potente”. A origem desse dado é real: um trabalho de 1990 mediu constantes de quenching de oxigênio singlete e encontrou para o licopeno 31 × 10⁹ M⁻¹s⁻¹, o valor mais alto da série testada — quase o dobro do betacaroteno.

Vale entender o que isso significa. O oxigênio singlete é uma espécie reativa capaz de danificar proteínas, lipídeos e DNA — e o licopeno o neutraliza por um mecanismo físico: absorve a energia, volta ao estado fundamental dissipando calor e não é consumido no processo.

Mas os próprios autores fazem uma ressalva que quase nunca é reproduzida:

“Entretanto, os compostos com constantes de quenching baixas ocorrem em níveis mais altos nos tecidos biológicos. Assim, carotenoides e tocoferóis podem contribuir quase igualmente para a proteção dos tecidos.”

Traduzindo: ser o mais potente por molécula não significa ser o mais importante no organismo, porque outros compostos estão presentes em concentração muito maior. É a diferença entre potência e relevância.

O que a evidência sustenta

Pele e exposição solar

O ensaio clássico, de 2001, deu a voluntários 40 g de extrato de tomate por dia — cerca de 16 mg de licopeno — com 10 g de azeite, por 10 semanas. Na semana 10, a formação de eritema induzido por simulador solar foi 40% menor que no controle (p=0,02). Na semana 4 não houve diferença — o efeito exige tempo de acúmulo.

As limitações são pesadas: 9 pessoas no grupo intervenção e 10 no controle, sem randomização, sem cegamento, e o desfecho é eritema experimental — não queimadura real, não fotoenvelhecimento, não câncer de pele.

E é preciso ser categórico: isso não substitui protetor solar. Uma redução de 40% de eritema experimental equivale, na literatura de fotoproteção oral, a um fator de proteção muito baixo.

Um estudo posterior, de 2005, trouxe um achado mais interessante. Comparando 10 mg/dia de licopeno sintético contra extrato de tomate contra uma bebida com o extrato, a redução do eritema em 12 semanas foi de 25%, 38% e 48% respectivamente. O tomate inteiro superou o licopeno isolado — provavelmente porque a matriz traz também fitoflueno e fitoeno, carotenoides incolores que absorvem na faixa UV.

É um argumento forte contra reduzir o alimento a uma molécula.

Cardiovascular

Uma meta-análise de 2017 com 21 estudos encontrou, para suplementação com tomate, redução de LDL de 0,22 mmol/L e melhora da função endotelial. Para licopeno isolado, redução de 5,66 mmHg na pressão sistólica. Repare na dissociação: tomate mexeu no LDL, licopeno isolado mexeu na pressão. Não é o mesmo sinal.

E a evidência é inconsistente entre meta-análises — há sínteses mais recentes que não encontram efeito algum sobre pressão ou lipídios. Todos os desfechos são fatores de risco intermediários; não existe ensaio randomizado com desfecho duro como infarto ou AVC.

Próstata

Uma meta-análise de estudos observacionais com 42 estudos, 43.851 casos e 692.012 participantes encontrou risco relativo de 0,88 tanto para ingestão dietética quanto para licopeno circulante, com relação dose-resposta linear.

Duas ressalvas obrigatórias. Primeira: não houve associação com câncer de próstata avançado. Segunda, e estrutural: estudos observacionais não estabelecem causalidade. Quem come mais tomate também come mais vegetais, fuma menos e se exercita mais. Confundimento residual é a explicação mais parcimoniosa.

A revisão sistemática dos ensaios randomizados sobre licopeno em hiperplasia prostática benigna e câncer de próstata é bem menos animadora que a epidemiologia.

No Brasil

O licopeno é constituinte autorizado em suplementos alimentares, em três fontes: de Blakeslea trispora, de tomate e sintético. O teto é de 8 mg/dia, e o uso é autorizado apenas para adultos acima de 19 anos — com advertência obrigatória de que o produto não deve ser consumido por gestantes, lactantes e crianças.

A situação das alegações é curiosa e dupla. Como suplemento alimentar, o licopeno não tem alegação autorizada. Como alimento, consta da lista de alegações de propriedade funcional aprovadas, com a redação:

“O licopeno tem ação antioxidante que protege as células contra os radicais livres. Seu consumo deve estar associado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis.”

E aqui vai um contraste que diz muito sobre como a ciência regulatória funciona: a EFSA avaliou exatamente essa alegação em 2011 e a rejeitou por falta de fundamentação científica. Mesma molécula, mesma literatura, veredictos opostos — porque os padrões de exigência de evidência são diferentes.

O resumo prático

O melhor uso do licopeno não passa por cápsula. Passa por molho de tomate refogado no azeite. O processamento térmico e a gordura fazem, juntos, mais pela absorção do que qualquer marketing de concentração — e o alimento inteiro entregou mais resultado que a molécula isolada no único estudo que comparou os dois diretamente.

Referências

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  2. Gärtner C, Stahl W, Sies H. Lycopene is more bioavailable from tomato paste than from fresh tomatoes. Am J Clin Nutr. 1997;66(1):116-122. PMID: 9209178
  3. Clinton SK, Emenhiser C, Schwartz SJ, et al. cis-trans lycopene isomers, carotenoids, and retinol in the human prostate. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 1996;5(10):823-833. PMID: 8896894
  4. Di Mascio P, Devasagayam TP, Kaiser S, Sies H. Carotenoids, tocopherols and thiols as biological singlet molecular oxygen quenchers. Biochem Soc Trans. 1990;18(6):1054-1056. PMID: 2088803
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  6. Stahl W, Heinrich U, Wiseman S, et al. Dietary tomato paste protects against ultraviolet light-induced erythema in humans. J Nutr. 2001;131(5):1449-1451. PMID: 11340098
  7. Aust O, Stahl W, Sies H, Tronnier H, Heinrich U. Supplementation with tomato-based products increases lycopene, phytofluene, and phytoene levels in human serum and protects against UV-light-induced erythema. Int J Vitam Nutr Res. 2005;75(1):54-60. PMID: 15830922
  8. Cheng HM, Koutsidis G, Lodge JK, et al. Tomato and lycopene supplementation and cardiovascular risk factors: A systematic review and meta-analysis. Atherosclerosis. 2017;257:100-108. PMID: 28129549
  9. Rowles JL 3rd, Ranard KM, Smith JW, An R, Erdman JW Jr. Increased dietary and circulating lycopene are associated with reduced prostate cancer risk: a systematic review and meta-analysis. Prostate Cancer Prostatic Dis. 2017;20(4):361-377. PMID: 28440323
  10. Ilic D, Misso M. Lycopene for the prevention and treatment of benign prostatic hyperplasia and prostate cancer: a systematic review. Maturitas. 2012;72(4):269-276. PMID: 22633187
  11. Linus Pauling Institute, Micronutrient Information Center. Carotenoids. Oregon State University.
  12. Anvisa. Instrução Normativa nº 28/2018 (texto consolidado), Anexos I, III, IV, V e VI; e Lista de Alegações de Propriedade Funcional Aprovadas.

Fechando a matéria

Leia também

Referências

  1. Gärtner C, Stahl W, Sies H.Lycopene is more bioavailable from tomato paste than from fresh tomatoes. Am J Clin Nutr. 1997;66(1):116-122. acessar
  2. Stahl W, Heinrich U, Wiseman S, et al.Dietary tomato paste protects against ultraviolet light-induced erythema in humans. J Nutr. 2001;131(5):1449-1451. acessar
  3. Rowles JL 3rd, Ranard KM, Smith JW, An R, Erdman JW Jr.Increased dietary and circulating lycopene are associated with reduced prostate cancer risk: a systematic review and meta-analysis. Prostate Cancer Prostatic Dis. 2017;20(4):361-377. acessar

Conteúdo informativo produzido pela Fitobrasil. Suplemento alimentar não é medicamento e não substitui alimentação equilibrada nem acompanhamento de profissional de saúde. Gestantes, lactantes e crianças precisam de orientação profissional antes do uso.